Grampo da PF tem pen drive como prova contra construtora

3 de abril de 2009
Os diálogos flagrados pelos grampos telefônicos e ambientais na Operação Castelo de Areia apontam evidências que, de acordo com o relatório da Polícia Federal, podem comprovar as remessas ilegais de recursos feitas pelo doleiro Kurt Paul Pickel e pelos diretores da construtora Camargo Corrêa.

São elas: o disco rígido de um computador pessoal, um pen drive, uma pasta com dados de doações, uma relação numerada de transferências feitas pelo doleiro suíço e os significados dos jargões usados nas conversas. A Polícia Federal não confirma essas apreensões. A perícia nessas provas, contudo, pode trazer fatos definitivos para uma denúncia à Justiça.

Para entender a arquitetura da organização criminosa, é preciso primeiro saber como agia o principal operador do esquema. Kurt Paul Pickel trabalhou por muitos anos no banco UBS, da Suíça, e hoje lidera, segundo relatório da PF, um grupo de doleiros a serviço da construtora Camargo Corrêa.

Com sua experiência no mercado financeiro, Pickel dava aparência de legalidade às transações ilegais por meio de empresas de fachada com remessas ao exterior. O suíço naturalizado brasileiro lavava recursos ao declarar a venda hipervalorizada de jóias e obras de arte na Europa.

Na conversa gravada com autorização judicial, Pickel detalha a operação:

Pickel: Quando nós viemos aqui, já faz mais de 20 anos.

Lindolfo: Humhumm!

Pickel: Desde o começo, eu declarei jóias e obras de arte na Suíça. Especificamente na Suíça.

Lindolfo: Sim.

Pickel: Então, a idéia seria a seguinte: aí coloquei um montante assim, teórico, não?

Lindolfo: Sim!

Pickel: Na época, uns 20 anos atrás, de mais ou menos 100 mil suíços.

Lindolfo: Sim!

Pickel: Tá bom? A agora pensei, por exemplo, se eu teria… bom, com essa valorização 20 anos atrás, essas coisas se valorizam bastante. Lindolfo: Declaração não pode pôr valorização.

Pickel: Não, não, não…

Lindolfo: Tá!

Pickel: Não, do mesmo valor como da época. Agora, disso, digamos, se eu teria… bom, uma peça… uma jóia que eu vendi lá na Suíça.

Lindolfo: Hamhamm!

Pickel: Essa… essa… eu estimei na época 40 mil…

Lindolfo: Hamhamm!

Pickel: E agora eu vendi para 500.

Lindolfo: Hamhamm!

Pickel: E faço transferir isso oficialmente por aqui.

Lindolfo: Perfeito, perfeito, perfeito!

Os principais "alvos" documentais da operação – o HD, o pen-drive, a pasta e os códigos das transferências – aparecem nos grampos da Polícia Federal. O rastro dos crimes financeiros está nas conversas.

Os diretores da Camargo Corrêa Fernando Dias Gomes e Pietro Francesco Giavina Bianchi, em diálogo gravado no dia 27 de janeiro de 2009, citam a existência de um pen drive e uma pasta com a relação de todas as doações partidárias "por dentro" e "por fora".

O material estaria sob os cuidados de Dárcio Brunato, outro diretor da construtora que estaria em viagem ao Peru. Segue o diálogo…

Fernando: Alô.

Pietro: Oba. Fala professor. Bom dia.

Fernando: Tudo bem?

Pietro: Tudo bem? Tudo jóia. O que que o Luiz está querendo aí.

Fernando: É do José Carlos Aleluia, saber se foi pago alguma coisa no passado.

Pietro: Mas pagamos, não?

Fernando: É eu vou dar uma olhada lá em baixo para ver se eu acho as coisas do Dárcio que ele não está hoje aqui.

Pietro: Ele não está aí é?

Fernando: Não. Foi para o Peru volta só hoje à tarde. Mas aí, eu daqui a pouco ligo para ele. Porque agora lá ainda são seis horas da manhã

Pietro: Além disso, na minha pasta lá

Fernando: Hum.

Pietro: Tem aquela pasta de eleições.

Fernando: Ah, tá bom.

Pietro: E lá tem todos os caras que foram pagos.

Fernando: Eu procuro lá, então.

Pietro: A relação inclusive… bom, inclusive o oficial… a colaboração oficial.

A investigação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal indica que doações legais e ilegais eram feitas. Todas precisam ser analisadas para avaliar quais são ilícitas.

O foco inicial da operação é chegar ao núcleo de ação dos crimes financeiros e apurar se a origem do dinheiro advém de uma contabilidade não-oficial, oriunda de fraudes de licitações de obras públicas.

A prática das doações "por dentro" e "por fora" aparece também num grampo que cita o ex-governador Mendonça Filho e então candidato à Prefetirua do Recife.

Nos grampos do dia 13 de agosto de 2008, o diretor Pietro Francesco Giavina Bianchi, um dos contatos ativos com Pickel, comenta que precisava trocar o hard disk de seu computador pessoal por "motivos de segurança". A memória poderia conter dados comprometedores sobre a ação da empresa nas transferências. Ele explica:

– O importante é que como usei esse micro, passou listagem por ele, já foi apagado, já foi feito tudo que tinha feito normalmente, mas diz o pessoal que tem recursos dos caras pegar (sic) da memória e tal, entende? Se for feito uma análise há condições de levantar tudo que se passou por esse computador. Então eu quero tirar fora esse negócio.

Kurt Paul Pickel e seus doleiros tinham o costume de enumerar as encomendadas remessas ilegais. 166, 177, 40, 41, 42, etc. Aparentemente, quando havia alguma entrega de dinheiro, os investigados combinavam previamente uma senha e se referem às pessoas envolvidas com apelidos de animais para dificultar possíveis investigações. Canguru, gaivota, girafa, zebra, coelho, camelo…

Em outro grampo, Kurt usa o termo "canguru" para identificar o dólar. E diz que ele deu um pulo de "dois quilômetros" para comentar a variação da moeda estrangeira no paralelo no dia citado.

Diante das evidências materiais para comprovar os crimes financeiros, a Polícia Federal pediu as prisões para evitar a destruição de provas.

– Para que a investigação tenha um regular desenvolvimento é preciso que os autores e/ou partícipes dos crimes tenham, mesmo que momentaneamente, privada a sua liberdade pois, caso contrário, terão eles facilidade para, entre si, planejarem e executarem alguma ação (fugindo, destruindo provas etc.) para impedir o esclarecimento de certos fatos e do envolvimento de outras pessoas, obstando, assim, os trabalhos dos órgãos encarregados da persecução criminal – diz a representação.

E conclui:

– Em outras palavras, soltos, poderão, além de sumir com as provas de seus ilícitos ou fugir, combinar seus depoimentos a Polícia Federal, o que impõe sua segregação cautelar.

A decifragem dos nomes dos animais e a perícia nos documentos vão ajudar na localização da rota da lavagem de dinheiro. E talvez, se o processo avançar, medir o tamanho do prejuízo aos cofres públicos.



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