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Nacional 05/jun

Agaciel: um candidato ficha-limpa

Sergio Dutti
EM CAMPANHA
Propaganda do ex-diretor na periferia: de olho na política

O ex-datilógrafo Agaciel Maia é um personagem-chave da crise que sacudiu o Senado no ano passado. Diretor-geral da instituição durante catorze anos, Agaciel perdeu o cargo quando se descobriu que era dono de uma mansão, avaliada em 5 milhões de reais, nunca declarada à Receita Federal. A casa, soube-se depois, era apenas um detalhe em sua biografia. Agaciel era o principal operador da máquina que produzia contratos superfaturados e nomeava funcionários-fan-tasma, por meio de atos secretos, em benefício de um seleto grupo de políticos. Seu poder era tão incontrastável que, mesmo sendo um mero burocrata, era tratado como o 82° senador. Apesar dos escândalos em que estava me-tido, Agaciel conservou o emprego de servidor e o salário de 23 000 reais. Mas não ficou totalmente satisfeito. Agora, depois de um ano de recolhimento, o ex-diretor está decidido a entrar de vez no mundo da política – universo que, em duas décadas de convivência com o poder, aprendeu a conhecer como poucos. Tratando-se de Agaciel Maia, o risco de isso acabar dando certo para ele não é desprezível.

 

Roberto Stuckert Filho/Ag. O Globo
FÔLEGO DE GATO
Agaciel Maia perdeu o cargo,
mas manteve o emprego e
o salário: amigos influentes

As negociações em torno do novo projeto estão adiantadas. Agaciel já decidiu que disputará um mandato pelo Partido Trabalhista Cristão (PTC), sigla que elegeu o ex-deputado Clodovil Hernandes em 2006. Só está em dúvida em relação ao cargo. Sua ideia inicial era eleger-se deputado federal no Rio Grande do Norte, onde cresceu e de onde saiu há quase quatro décadas. Mas, diante do alto risco e do custo elevado, seria uma aventura temerária mesmo para alguém impetuoso como ele. O mais provável é que dispute uma das 24 cadeiras da Câmara Distrital de Brasília, cujos parlamentares se no-ta-bilizaram por esconder propinas em lugares exóticos, como meias. O PTC estima que seu mais novo candidato possa conquistar cerca de 10 000 votos. Seu sistema propulsor seria formado por servidores do Senado – casta que Agaciel sempre privilegiou e da qual é uma espécie de ídolo. "É a minha turma", confirma o ex-diretor.

 

A direção do PTC não se importa com a biografia tisnada de seu novo pupilo. "Acredito que ele pode nos trazer muitos votos. Às vezes as pessoas tomam certas atitudes por necessidade", justifica o presidente da sigla em Brasília, Divino Omar Nascimento. Com o sinal verde do partido, Agaciel já está em campanha. Ele mandou pintar em muros da periferia o seu endereço na internet, uma maneira disfarçada de fazer campanha eleitoral antecipada. O site abriga artigos sobre problemas da cidade e dados biográficos inúteis, como a data em que se tornou membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Agaciel garante que o objetivo não é eleitoral. "É só para que os servidores do Senado não percam o contato comigo", explica. Havia jeito mais fácil e barato. Bastava comparecer ao trabalho, onde raramente é visto. Apesar das dificuldades de uma campanha, sua carreira é promissora. Com dinheiro, amigos influentes e vasta experiência política, ele tem tudo para criar sua própria dinastia.