Servidores e governo medem força. O país paga

9 de agosto de 2012

As manifestações e os efeitos da greve nacional dos servidores públicos federais, que a cada dia tem mais adeptos, ultrapassaram os limites da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, e ganharam o Brasil. Além de um grande protesto na capital federal, realizado pelos trabalhadores das carreiras típicas de Estado, a quarta-feira foi marcada por atos em diversas unidades da Federação. Policiais rodoviários federais e até mesmo professores e técnicos universitários fecharam rodovias e dificultaram o trânsito da população. Além disso, o movimento de fiscais agropecuários e de técnicos e analistas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ameaçam o abastecimento de alimentos e de medicamentos.

Não bastassem os entraves para a liberação de mercadorias enfrentados nos postos alfandegários do país, muitos brasileiros que precisaram de serviços dos pontos de atendimento da Polícia Federal voltaram para casa sem resolver suas pendências. A emissão e o recebimento de passaportes, por exemplo, estão prejudicados onde os atendentes são concursados, e não terceirizados.

Na Esplanada, cerca de mil servidores das carreiras típicas de Estado ocuparam a área em frente ao Bloco K, sede do Ministério do Planejamento, como forma de pressionar o governo para que volte a negociar com os grevistas. De acordo com o presidente da União Nacional dos Analistas e Técnicos de Finanças e Controle (UnaconSindical), Rudinei Marques, caso os trabalhadores não cheguem a um acordo com a Presidência da República até 31 de agosto, data-limite para inclusão de emendas à Lei de Diretrizes Orçamentárias, na qual pode-se prever reajustes, as paralisações vão continuar. “A nossa estratégia é de pressão constante em médio e em longo prazos”, anunciou. As negociações devem ser retomadas após o dia 13.

Os principais pleitos desses profissionais são reestruturação de carreira, realização de concursos públicos e reposição das perdas inflacionárias desde 2008. O presidente do Fórum Nacional Permanente de Carreiras Típicas de Estado (Fonacate), Pedro Delarue, estima que as categorias assim classificadas reúnam, atualmente, 50 mil ativos. “Ao menos metade desses servidores está de braços cruzados ou com indicativo de greve”, calculou. Se uma proposta não for apresentada, todas as categorias prometem suspender as atividades depois do dia 20”, adiantou. Se as reivindicações forem aceitas pelo governo, significarão aumento de 50% na folha de pagamento, com impacto de R$ 92 bilhões sobre o Orçamento.

As carreiras engrossam a paralisação do Executivo Federal, na qual, segundo a Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Federal (Condsef), já mobiliza 350 mil pessoas. Caso os trabalhadores das 26 carreiras ligadas ao Fonacate parem, operações em setores estratégicos podem ficar prejudicadas. Com a mobilização dos técnicos e dos analistas da Controladoria-Geral da União (CGU), por exemplo, as atividades do Programa de Fiscalização por Sorteios Públicos de Municípios foram atrapalhadas. Segundo Rudinei Marques, dos 60 municípios que precisariam ser auditados, apenas 15 passaram por fiscalização, o que pode atingir, inclusive, o processo eleitoral municipal.

Confusão

Depois de passar a tarde em frente ao Planejamento, os manifestantes rumaram para o Palácio do Planalto. As lideranças sindicais chegaram a ter dúvidas sobre a mudança de lugar, já que o secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, estaria proibido de negociar com grevistas, segundo Delarue. Mas, ainda assim, insistiram em ser recebidas e houve conflito entre trabalhadores e policiais militares porque os manifestantes não quiseram ficar atrás do bloqueio na Praça dos Três Poderes e avançaram para a pista em frente ao Planalto. A polícia reagiu com gás de pimenta. O embate durou alguns minutos.

A ministra do Planejamento, Miriam Belchior, comentou ontem sobre as paralisações em todo o país. De acordo com ela, o governo está demorando a responder aos grevistas porque teria sido surpreendido pelos efeitos da crise que atinge a Europa e os Estados Unidos. “Iniciamos o ano com uma perspectiva melhor do que seria a economia mundial, mas, no fim de junho, tudo ficou muito nublado, o que fez com que tivéssemos de refazer as nossas contas. Então, estamos preferindo fazer uma análise ‘detida’ para, depois, apresentar, nos casos em que for possível, propostas responsáveis aos servidores”, justificou.

Preocupação

 

Miriam garantiu que o Executivo tem feito o possível para que os efeitos do movimento dos servidores não atinjam o atendimento aos brasileiros. “Estamos com atenção absoluta para garantir que os serviços sejam prestados. A presidente Dilma (Rousseff) assinou o Decreto nº 7.777 (que viabiliza a substituição de servidores de braços cruzados por terceirizados e por funcionários de estados e municípios) para garantir que os portos não parem, por exemplo. Vamos continuar atuando para evitar qualquer comprometimento da prestação de serviços”, ressaltou.

 

O ministro do Trabalho, Brizola Neto, reiterou que, apesar de as negociações estarem a cargo do Ministério do Planejamento, está aberto a ouvir as reivindicações das lideranças sindicais, como forma de auxiliar o Planalto. “Não me nego a receber ninguém. Mas é no Planejamento onde estão os números, e, até por força do decreto presidencial, é o órgão encarregado das negociações com os servidores”, explicou. (Colaboraram Grasielle Castro e Vânia Cristino)

 

Ministro vaiado

 

O que deveria ter sido uma cerimônia protocolar de abertura se transformou, rapidamente, num palco para os protestos dos servidores públicos em greve contra o governo. Os trabalhadores aproveitaram a presença do secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, na I Conferência Nacional de Emprego e Trabalho Decente para demonstrar o descontentamento com o governo. Quanto Carvalho começou a falar foi interrompido com gritos e vaias por cerca de 60 servidores. Não faltaram xingamentos de pelego, entreguista e coisas do gênero.



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