Em 3,5 anos, Rio apreende meio milhão de munições

25 de setembro de 2017

 

SÃO PAULO – As polícias do Rio apreenderam de janeiro de 2014 a junho de 2017 548.777 munições, o equivalente a 430 balas por dia ou uma para cada 30 habitantes do Estado. Mais da metade dessa quantidade (64%) é de calibres restritos e metade das apreensões se concentra na área de 20 das 138 delegacias do Estado. As constatações são de uma análise feita pelo Instituto Sou da Paz a partir de dados do Instituto de Segurança Pública (ISP). A pesquisa mostra ainda que, no ano em que a violência voltou a se crescer, levando mais medo à rotina da população fluminense, o ritmo da retirada das munições ilegais de circulação caiu.

O estudo mostra que as apreensões no Rio vinha crescendo continuamente entre 2014 e 2016, passando de 139,7 mil munições para 175,7 mil. No primeiro semestre de 2017, o número chegou a 71,1 mil e, se esse ritmo permanecer, deverá ser suficiente apenas para retornar ao patamar de três anos atrás. “Em um cenário de recrudescimento da violência, a hipótese é de menos eficiência da polícia, provavelmente impactada pela crise fiscal (atraso de salário, problemas de viatura, entre outros). Isto porque outros indicadores operacionais caíram no mesmo período (como apreensão de armas, ainda que em menor proporção) em contrapartida aos tiroteios e mortes violentas que só crescem”, detalha a pesquisa.

O diretor-executivo do Instituto Sou da Paz, Ivan Marques, diz em nota que a facilidade de obter munição ilegalmente tem ligação direta com o nível de violência. “Munição farta significa mais potencial das quadrilhas em se enfrentar e para enfrentar a polícia. Em outras palavras, significa mais policiais mortos e a população em meio ao fogo cruzado acirrado. Um enfrentamento de mais de cinco horas, como visto na Comunidade da Rocinha, seria evitável com menos munições na mão do crime.”

A análise do Sou da Paz permitiu constatar que foram apreendidas 150.593 unidades de calibre 9 milímetros, de uso restrito de policiais federais e integrantes das Forças Armadas. A lista mostra ainda que 77,2 mil munições de calibre 7,62 mm e 46,4 mil de 5,56 mm foram tiradas de circulação, balas usadas por armas automáticas e com alto poder de letalidade.

O instituto diz que a quantidade de munições restritas em circulação preocupa. “Possivelmente o Rio é o Estado com maior número de fuzis e que possui uma dinâmica de disputa de território decorrente do tráfico bem específica, o que ajuda a explicar a procura por armas e munições de guerra, como os fuzis. A alta proporção de munições restritas significa, na prática, uma capacidade maior do crime de se opor à lei e ao Estado, por isso este achado é tão preocupante.”

Quanto a informações dos locais das apreensões, a pesquisa mostra que 52% dos casos ocorreram em 20 das 138 delegacias do Estado, “demonstrando uma alta concentração”.  ”Na análise das áreas integradas da capital é possível ver que salta aos olhos regiões como Acari, Pavuna, Irajá e Realengo (AISP 41 e 14) onde se localizam o Complexo do Chapadão e Pedreira. Nestas áreas, além de alta apreensão de armas e munições há alta taxa de letalidade violenta (homicídios, latrocínios e mortes decorrentes de intervenção policial)”, descrevem os pesquisadores.

O estudo diz que um modo de minar o poder das facções criminosas que “assolam o Rio de é interromper ou dificultar o fornecimento de munições”. “Para isto é preciso que haja um rastreamento eficiente e sistemático da origem dos cartuchos e estojos usados no crime”, acrescenta.

“Sabendo que legalmente a responsabilidade pela fiscalização da fabricação e comércio da munição é no Brasil uma responsabilidade do Exército, é preciso mobilizar o atual apoio federal no estado para descobrir qual é o percurso desta munição brasileira, da fábrica até chegar na mão de criminosos, e interromper este fornecimento”, comenta Marques.

A Secretaria da Segurança do Rio não comentou o estudo.

Fonte: Estadão



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