Saúde de operadores de segurança pública é tema de reunião em ES

3 de agosto de 2018

 

Com uma rotina estressante, que envolve risco à vida a todo momento, os profissionais da segurança pública sofrem impactos direto na sua saúde física e mental. Para debater sobre o assunto e apresentar ações e projetos que possam melhorar a qualidade de vida desses profissionais, foi realizada a 1ª Reunião de Trabalho Interinstitucional de Atenção à Saúde dos Operadores da Segurança Pública no Espírito Santo, entre os dias 31 de julho e 02 de agosto, em Vitória.

Com a participação de representantes da Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Civil, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros Militar e Secretaria de Justiça, a programação do encontro contou com palestras que debateram temas pertinentes ao adoecimento dos profissionais da segurança pública, numa perspectiva multidisciplinar, assim como possibilitou a troca de experiências e atualização de conhecimentos.

A formação deste grupo interinstitucional, uma iniciativa inédita no Espírito Santo, foi liderada por profissionais das diversas categorias de operadores de segurança, que perceberam como um problema comum questões de saúde, física e mental, que impactam na qualidade de vida e leva a geração de doenças oriundas do trabalho.

Representando o Sindicato dos Policiais Federais do Espírito Santo (Sinpef-ES) na abertura do encontro, o vice-presidente Hélio de Carvalho apresentou um estudo divulgado recentemente pelo Sindicato dos Policiais Federais no Distrito Federal (Sindipol-DF), realizado por psicólogas da Universidade de Brasília (UnB) com agentes da Polícia Federal, que apontou que a instituição é marcada pela existência de assédio moral e terror psicológico.

“A pesquisa mostrou que 83% dos policiais federais estão altamente expostos a síndromes e transtornos psicológicos, 74% se sentem indignados, 39%, inúteis, 46% têm emoções de raiva e 18%, medo. Sentimentos que podem provocar efeitos “devastadores”, como tensão emocional e física, causando inclusive o desenvolvimento de esgotamento profissional. São dados extremamente preocupantes e desconhecidos pela grande maioria da população, que vê na Polícia Federal uma instituição de renome e que goza de grande prestígio perante à sociedade. Contudo, seus integrantes, em especial, os agentes federais, pedem apoio e necessitam de atenção, como bem mostra o estudo”.

Os dados são reforçados por pesquisa realizada pela Fundação Getulio Vargas (FGV), de 2014, que mostrou que a atividade policial conta com fatores geradores de estresse como a vivência cotidiana com situações de violência, de criminalidade e de morte; a intervenção em situações de conflito e tensão; a escala de trabalho intensa; risco de morte; acidentes de trânsito (perseguição em alta velocidade) e súbito esforço físico. Como consequência, aparecem doenças físicas e psicológicas, como a depressão, o alcoolismo e até mesmo o suicídio. No mesmo estudo, a FGV aponta os efeitos crônicos que a manifestação do estresse produz: doenças cardiovasculares, transtornos musculoesqueléticos, transtornos mentais, câncer e problemas gastrointestinais.

“Ainda que a pesquisa envolva o ambiente institucional da Polícia Federal, podemos supor que semelhante situação possa estar ocorrendo nas demais forças de segurança. Os dados são alarmantes e, infelizmente, com um desfecho que se tornou, de certa forma, mais rotineiro nessa instituição que em outras congêneres: o suicídio. Suicídio que ainda é um tabu e simboliza por vezes a materialização da frustração daquele profissional”, reforça Hélio de Carvalho.

Para a assistente social da Polícia Federal, Gegliola Campos da Silva, que esteve à frente da mobilização para a realização deste evento, o debate é de grande importância não só pelo seu pioneirismo, mas principalmente pela integração entre as forças de segurança em torno de um problema em comum e que muitas vezes é negligenciado. “É fundamental que as instituições vejam o policial como cidadão de direitos e que implementem diretrizes para uma gestão humanizada e de valorização de seus servidores”, afirma Gegliola, que é formada em Serviço Social e em Direito e Especialista em Gestão da Administração Pública.

A partir de agora, o grupo interinstitucional tem como objetivo dar continuidade à integração e à parceria entre os profissionais que atuam no atendimento aos trabalhadores da segurança pública. “Ao final do evento foram compilados pontos que constituirão uma carta de intenções, que será elaborada no prazo de 30 dias, com a apresentação de propostas aos gestores públicos sobre a criação de um programa de atenção ao operador da segurança pública e estratégias de cuidado à saúde desse trabalhador”, antecipa Gegliola Campos da Silva.

SINPEF/ES



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